Expansão energética nas periferias globais: o fim dos territórios1  

Francisco Calafate-Faria,2 Klemens Laschefski,3 Bruna Viana de Freitas,4 Fabiana Soares Leme,5 Rômulo Barbosa6 e Aline Weber Sulzbacher7

Resumo Este artigo examina criticamente como a expansão das fronteiras extrativistas “verdes”, sob o pretexto da transição energética, reproduz padrões coloniais de desapropriação territorial e degradação ecológica. Com base em estudos de caso em Portugal e no Brasil, exploramos como os projetos de mineração de lítio, justificados por metas climáticas e pelo consenso da descarbonização, intensificam a violência ambiental e social em territórios historicamente marginalizados. Argumentamos que essas regiões são transformadas em “periferias” não pela geografia, mas pela dinâmica relacional dentro das cadeias de abastecimento globais, onde narrativas tecnocráticas de sustentabilidade ofuscam o conhecimento local e a diversidade ecossocial. O discurso da compensação não aborda as perdas culturais e ecológicas irreversíveis, enquanto a “transição energética” serve mais para garantir mercados e manter definições geopolíticas do que para promover a justiça. Destacando a resiliência e as práticas socioecológicas das comunidades locais, apelamos a cosmovisões diversas que centram a vida, a interdependência e a justiça, desafiando os paradigmas dominantes do “desenvolvimento verde” e oferecendo caminhos para uma transição verdadeiramente transformadora. 

Palavras-chave transição energética, transição justa, comunidades tradicionais, minerais críticos, colonialismo verde. 

1 Introdução 

Ao limitar o debate sobre as mudanças ambientais globais à fórmula química CO2, o “reducionismo do carbono” (Moolna 2012) reforça os setores econômicos responsáveis pela maior parte dos danos ambientais, enquanto justifica a apropriação de territórios de povos que desenvolvem formas engenhosas e sustentáveis de uso da terra. Neste artigo, abordamos comunidades tradicionais que resistem à mineração de lítio no Brasil e em Portugal. Argumentamos que a expansão da fronteira extrativista exigida pelo modelo dominante de transição energética gera a periferização e a desvalorização dessas comunidades. Silenciar suas vozes e subordinar seus modos de vida a um modelo tecnocrático de transição ameaça a diversidade ecossocial, reduzindo assim a capacidade do planeta de enfrentar as mudanças climáticas O impulso para descarbonizar as economias lançou uma corrida global pelos recursos minerais necessários para novos sistemas energéticos que possam aproveitar fontes de energia intermitentes (painéis solares, turbinas eólicas, redes elétricas e sistemas de armazenamento). No centro do impulso econômico para essa mudança tecnológica está a substituição dos veículos com motor de combustão interna por veículos elétricos (EVs) (IEA 2022). Nesse modelo de transição, paisagens moldadas pelas cadeias de abastecimento industriais aparecem como uma solução para uma crise global. Assim, as monoculturas agrícolas e florestais, as mega barragens hidrelétricas, as pilhas de minérios e as indústrias de produção em massa, que há apenas algumas décadas eram consideradas incompatíveis com a sustentabilidade, ganham uma nova aura de ecomodernidade como soluções tecnológicas para a crise climática. Como resultado, a quantidade de terra necessária para a mineração e a produção de energia está aumentando para proporções sem precedentes, em detrimento de outros tipos de uso da terra.8

O lítio é um dos minerais “críticos” de alta demanda, uma vez que é um elemento fundamental para a produção de baterias para veículos elétricos. Neste artigo, focamos nas lutas das comunidades que enfrentam o avanço da extração de lítio em duas regiões periféricas: o Vale do Jequitinhonha, no nordeste do estado de Minas Gerais, onde se estima que estejam localizadas 85% das reservas de lítio do Brasil (Monteiro 2024); e a região do Barroso, no norte de Portugal, onde a mineradora Savannah Resources reivindica os direitos de exploração do “mais significativo depósito de lítio espodumênio da Europa Ocidental” (Savannah Resources plc n.d.). 

Tanto na região do Jequitinhonha quanto na do Barroso, os meios de subsistência que não se enquadram nas visões hegemônicas de produtividade econômica estão ameaçados. A tese que elaboramos neste artigo é que sua posição como periferias as torna aptas a formar as novas fronteiras do “extrativismo verde” (Bruna 2023; Andreucci et al. 2023; Dunlap e Riquito 2023). Essa condição comum é determinada pela situação desses territórios em relação a um processo violento de vitimização que lhes é comum, apesar de suas histórias, populações e posições muito diferentes nos sistemas geopolíticos. Os dois contextos sustentam nosso argumento de que, em vez de uma “transição energética”, estamos observando uma expansão das fronteiras extrativistas em territórios e ecossistemas vulneráveis, mas ricos.

Essa violência se estende para além das minas de lítio, já que as baterias de íon de lítio são usadas principalmente em veículos novos, cuja demanda total por matérias-primas também impulsiona outros tipos de minas no Brasil. Por exemplo, as estratégias de descarbonização associadas ao “aço verde” dependem de agrocombustíveis e carvão vegetal de plantações de eucalipto, gigantescas fazendas fotovoltaicas que abastecem minas de ferro em crescimento e assim por diante. Essa expansão múltipla ameaça cada vez mais os meios de subsistência dos povos indígenas e outras comunidades tradicionais9 incorporados à sociobiodiversidade regional, transformando suas terras em territórios vítimas (Laschefski 2025). 

Como resultado, as vozes, experiências e territórios que se opõem a esse processo violento são silenciados e descartados como obstáculos aos inevitáveis processos de desenvolvimento e transição. No entanto, essas são as vozes capazes de articular outros mundos possíveis, baseados em modos de vida diversos, formas tradicionais de interconexão entre os seres humanos e o meio ambiente e produção ecossocial do espaço. O filósofo indígena brasileiro Ailton Krenak classifica as comunidades que sustentam esses modos de vida como “ilhas”: 

Ainda há ilhas no planeta que se lembram do que estão fazendo aqui. Estão protegidas por essa memória de outras perspectivas de mundo. Essa gente é a cura para a febre do planeta, e acredito que podem nos contagiar positivamente com uma percepção diferente da vida. (Krenak 2020: 73) 

Este artigo destaca vozes dessas “ilhas” que podem abrir caminhos para um futuro globalmente sustentável. 

Nas seções 2 e 3, discutimos os casos. Primeiro, apresentamos o Vale do Jequitinhonha, no Brasil, recentemente renomeado pelo governador do estado de Minas Gerais como “Vale do Lítio”, em uma iniciativa destinada a atrair investimentos para a extração de lítio em 14 municípios da região. Em seguida, focamos na região do Barroso, em Portugal, onde os planos de exploração de um grande depósito de lítio ameaçam a sobrevivência de uma paisagem única, um patrimônio mundial agrícola construído ao longo de séculos, onde esses recursos minerais estão localizados. A seção 4 discute as vozes dessas duas regiões que lutam para sobreviver a esses processos violentos. Na seção 5, nos concentramos nos processos de produção e reprodução das periferias envolvidas na expansão das fronteiras extrativistas, antes de apresentar nossas reflexões finais na seção 6. 

2 O Vale do Jequitinhonha, Brasil: uma história de exploração 

“Jequitinhonha” é uma expressão de origem indígena que significa “rio largo cheio de peixes” (Santiago 2006). O Vale do Jequitinhonha, que leva o nome do rio de 1.000 km de extensão que atravessa os municípios da região, está localizado na parte nordeste de Minas Gerais, ocupando 14% da área do estado. Com cerca de 950.000 habitantes, inclui 55 municípios, divididos em três microrregiões: Baixo, Médio e Alto Jequitinhonha (IBGE 2010), conforme mostrado no mapa da Figura 1. 

 

Por mais de 500 anos, os territórios do Jequitinhonha passaram pela exploração de bens comuns, transformados em recursos naturais. O Vale do Jequitinhonha passou por vários ciclos econômicos, começando no século XVII com a busca por ouro e pedras preciosas (diamantes, turmalina, topázio, etc.) pelos bandeirantes, os saqueadores e exploradores que foram os pioneiros da colonização portuguesa. Ainda hoje, nomes de cidades como Diamantina, Turmalina, Berilo e outras testemunham essas histórias de monoculturas minerais. As cidades coloniais da região ainda refletem a riqueza concentrada desse período, que foi construída em grande parte às custas dos africanos escravizados. 

Após fases de expansão e declínio econômico, os programas de desenvolvimento iniciados em meados do século XX acabaram transformando o Jequitinhonha em uma região fornecedora para as cidades industriais emergentes. Grandes currais foram construídos para criar gado para a produção de leite e carne para alimentar a população em rápido processo de crescimento e urbanização. A isso se somou uma política energética que, já na década de 1970, promoveu a construção de barragens (por exemplo, Irapé) e monoculturas de eucalipto que tomaram conta dos ecossistemas excepcionalmente ricos dos planaltos, conhecidos como chapadas. Desde o início deste século, a mineração de aço, nióbio e outros metais críticos, incluindo lítio, se expandiu na região (Laschefski 2025). 

Apesar de ser a fonte de produtos tão valiosos, a região carrega o estigma de “Vale da Miséria”, especialmente desde o colapso da mineração de pedras preciosas (Porto-Gonçalves 2021). O uso monocultural moderno da terra gera altos lucros com baixa demanda de mão de obra, gerando relações extrativistas que empobrecem a população. Esse tem sido um dos principais motivadores para muitas comunidades rurais cujos habitantes são descendentes de ex-escravos (quilombolas) desenvolverem a autossuficiência em estreita relação com seu ambiente local. De forma similar, uma grande variedade de comunidades tradicionais rurais, incluindo Geraizeiros, Caatingueiros, Vazanteiros e outras,10 inseridas em diferentes biomas, foram tornadas invisíveis e silenciadas, ao mesmo tempo em que usavam essa condição para escapar das ondas de apropriação colonial e neocolonial. 

Esses processos de apagamento contribuíram para a compreensão da região como “demograficamente vazia” (Porto-Gonçalves 2021). A coleta e a mineração artesanal, entre outras atividades de coleta de baixo impacto (extrativismo em português), também têm sido características de muitas dessas comunidades. Sua diversidade cultural se reflete em seu artesanato, música e outras formas de expressão artística, que são famosas muito além das fronteiras da região. Ouvir as vozes desses grupos nos permite perceber o Vale do Jequitinhonha como uma região potencialmente próspera, para além de seus recursos minerais (Laschefski 2011). A valorização externa de seus recursos minerais e a desvalorização das culturas e economias locais posicionam-na para se tornar uma fornecedora periférica de matérias-primas para modos de produção extrativistas. O recente aumento na demanda por lítio expande a fronteira extrativista para novas áreas – mas, para muitas comunidades, é apenas a mais recente onda de desapropriação e violação de direitos. 

A exploração de lítio no Vale do Jequitinhonha remonta à década de 1990, quando a Companhia Brasileira de Lítio (CBL) implantou a Mina da Cachoeira, uma mina subterrânea localizada nos municípios de Araçuaí e Itinga. Em 2012, a Sigma Lithium iniciou estudos geológicos para o projeto Grota do Cirilo nos mesmos municípios. Com sede no Canadá, a empresa iniciou a extração em Itinga em abril de 2023 (Chiappini 2023). Em maio de 2023, o governador de Minas Gerais, o ministro de Minas e Energia e a CEO da Sigma Lithium lideraram uma “cerimônia de toque do sino”11 na bolsa de valores Nasdaq, em Nova York, para atrair investidores estrangeiros para a exploração de lítio no Vale do Jequitinhonha (Agência Minas 2023). Foi criada a regionalização do “Vale do Lítio”, abrangendo 14 municípios da região. Esse ato deu aprovação institucional à “corrida do lítio”, e o termo “Vale do Lítio” passou a ser comumente usado na mídia para se referir à região.

Desde então, o número de pedidos de direitos minerários nessas áreas aumentou drasticamente.12 Uma análise dos dados sobre processos minerários de lítio registrados na Agência Nacional de Mineração (ANM), realizada em fevereiro de 2024, mostrou um aumento de 562% em relação a 2022 (Observatório dos Vales e do Semiárido Mineiro 2024). Esses processos de mineração ameaçam comunidades cuja posse da terra é precária.

Dado que a região é predominantemente habitada por comunidades tradicionais, os protocolos de consulta para obter o Consentimento Livre, Prévio e Informado (FPIC) são exigidos pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT 169), ratificada pelo Brasil, como condição para o licenciamento de novos projetos de mineração. Entre os diretamente afetados pela mineração de lítio estão os povos indígenas Aranã, Pankararu e Pataxó (IBGE 2022) e pelo menos 11 comunidades quilombolas nos municípios de Araçuaí e Itinga (Ministério do Desenvolvimento Social s.d.). 

A Sigma Lithium, autoproclamada “primeira empresa de lítio verde do mundo”, inaugurou a atual onda de extrativismo verde. No entanto, a Sigma utiliza uma tecnologia de mineração a céu aberto que produz 97% de rejeitos de mineração para explorar faixas estreitas de pegmatito, com 1,7 a 2 km de comprimento, 13 a 15 m de largura e 255 m de profundidade. A maior parte da terra é, portanto, ocupada por gigantescas pilhas de rejeitos que prejudicam o território e a população. Além das duas minas existentes, a Sigma planeja explorar mais sete usando mineração a céu aberto nos próximos 8 a 15 anos. O resultado não será ecologicamente nem socialmente sustentável: uma transformação radical da paisagem e da terra em material estéril. Enquanto isso, as comunidades da região sofrem com o ruído e os impactos estruturais das explosões de rochas pegmatíticas e com a poeira levantada pelo transporte de resíduos, que polui constantemente o interior das casas e causa problemas respiratórios.

Moradores de duas pequenas comunidades rurais vizinhas às operações da Sigma relataram que as explosões são piores à noite, prejudicando seu sono e saúde mental (Magnani e Binda 2025). As explosões de rochas também causam rachaduras nas casas, colocando as pessoas em risco. As rachaduras afetaram as cisternas de captação de água da chuva construídas  como parte de um programa do governo federal. Quando essas cisternas foram danificadas, a empresa as substituiu por cisternas de plástico e assumiu a responsabilidade da manutenção, tornando a comunidade dependente da Sigma para ter acesso à água (ver Figura 2).

 

Enquanto as comunidades se vêem subjugadas à empresa para ter acesso a um direito fundamental, uma das duas empresas de mineração de lítio que operam na região recebeu licenças para uso diário de água que seriam suficientes para abastecer 34.000 famílias (CPT MG 2024). Vale ressaltar que a questão do abastecimento de água nesta região semiárida é de fundamental importância. As 19 empresas de lítio com concessões para operar na região não realizaram nenhum estudo sobre o impacto dos poços de mineração nos aquíferos utilizados pela população local (GESTA et al. 2025). 

As populações mais próximas das minas são as mais vulneráveis. Elas são ainda mais vitimadas pelas operações de mineração. Os danos que sofrem são ignorados, e as empresas de mineração esperam gratidão da população por fornecer erviços básicos que o Estado deveria ter garantido. O marketing da empresa em relação à gestão social e responsabilidade ambiental envolve projetos em que estampa sua marca e que prometem e anunciam fornecimento de acesso à água, pavimentação de estradas, reforma de escolas e centros de saúde comunitários, ofertas de emprego e fornecimento de microcrédito para empreendedores sociais, entre outros. Em outras palavras, as empresas se concentram nas demandas urgentes da população, que, em muitos casos, se tornam mais agudas devido à chegada de suas atividades. No entanto, esses serviços têm um preço alto: cooptação, silenciamento da dissidência, baixos padrões e, acima de tudo, uma data de validade curta, uma vez que não há planejamento socioeconômico para o período após o fechamento das minas.

Processos semelhantes de silenciamento violento e subjugação das vozes e modos de vida locais estão ocorrendo no contexto social e histórico muito diferente da região do Barroso, em Portugal. 

3 Barroso, Portugal: um território em luta 

Com uma área ligeiramente maior do que o Vale do Jequitinhonha, Portugal, o país que estabeleceu o primeiro domínio imperial europeu sobre o território do Brasil entre os séculos XVI e XIX, também tem suas periferias internas. Nesses territórios, histórias ancestrais de entrelaçamento entre ambientes hostis e culturas sustentáveis criaram paisagens culturais únicas. A região do Barroso é um desses lugares. Localizada na província de Trás-os-Montes, leva-se cerca de seis horas para chegar lá de carro a partir de Lisboa. 

Em um local distante dos centros urbanos e dos circuitos de comunicação nacional e global, a paisagem cultural do Barroso foi construída “como uma unidade composta ao longo do tempo” (Capela de Campos 2020: 43). Esse sistema comunitário equilibra valores naturais, culturais, sociais e econômicos, sem conflito entre a economia e o meio ambiente. Entre os processos característicos do comunitarismo barrosão está o sistema de vezes, ou vezeiras (Fontes 1977). Vezes é a prática de pastoreio rotativo entre proprietários de gado em áreas privadas e terras comuns. Este sistema assume muitas formas em diferentes aldeias e reflete a abordagem comunitária às tarefas necessárias para a vida coletiva. De acordo com Capela de Campos (2020: 43), “as chamadas vezes” são “aplicadas tanto à construção, manutenção e utilização de edifícios e espaços comunitários, como à distribuição de atividades agrícolas e pecuárias essenciais”. 

A avaliação da paisagem cultural do Barroso como um ambiente criado ao longo do tempo pela proximidade e conhecimento compartilhado entre as populações e as ecologias resultou no seu reconhecimento pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) em 2017 como Patrimônio Agrícola Mundial. A FAO destaca como as populações locais desenvolveram práticas sociais comunitárias e sistemas de uso da terra compartilhados e sustentáveis em resposta às características do território — terreno acidentado cercado por quatro cadeias de montanhas muito altas — e um clima com temperaturas muito baixas no inverno e muito altas no verão. Como diz o ditado local, o Barroso tem nove meses de inverno e três de inferno

Uma característica do sistema barrosão é a importância dos baldios, cujas origens remontam à Idade Média. Em Portugal, terreno baldio é frequentemente sinônimo de terra abandonada, particularmente em áreas urbanas. No entanto, em algumas áreas rurais de Portugal, os baldios são porções de terra geridas e utilizadas pela população local sem que sejam propriedade pública ou privada. No Barroso, estas terras comuns são historicamente utilizadas para pastagem, obtenção de lenha e forragem, e são geridas coletivamente para prevenir incêndios e outras ameaças naturais e humanas. 

Nas décadas de 1930 e 1940, o sistema de baldios foi vítima de um ataque pelo regime do Estado Novo, que reduziu massivamente estas áreas no país. Num processo denominado Junta de Colonização Interna (Cabral 2023), a ditadura fez um levantamento dos baldios para estabelecer parcelas de assentamento. O Barroso era a região com a maior área de baldios. A maioria desses territórios foi convertida em monoculturas de espécies arbóreas comerciais, como o pinheiro, uma vez que o projeto original de criação de novas propriedades privadas fracassou. A paisagem foi profundamente transformada naqueles anos. Ainda assim, algumas áreas de baldios permaneceram ou retornaram, após a Revolução de 1974, à sua forma atual de soberania comunitária sobre a terra. Nas aldeias de Covas do Barroso e Romainho, esta forma diferenciada de propriedade tem sido um elemento essencial da resistência local ao avanço da mineração de lítio.

A Savannah Lithium Ltd (como era chamada na época) chegou no ano da certificação de Patrimônio Mundial pela FAO e solicitou à Assembleia de Compartes de Covas do Barroso autorização para prospectar minerais. O Conselho (na altura da redação deste artigo composto por 193 membros – a população da aldeia) opôs-se unanimemente às incursões de prospecção assim que descobriu a dimensão do projeto mineiro através dos meios de comunicação internacionais (Wise 2020). Em 2018, os residentes de Barroso tomaram conhecimento do interesse nos seus recursos subterrâneos através de um vídeo produzido pela Empresa de Desenvolvimento Mineiro (EDM Lítio 2018) e através de folhetos e banners do Ministério da Economia, distribuídos por um antigo Secretário de Estado da Energia numa importante conferência internacional sobre mineração. Vários altos funcionários do Estado português anunciaram oportunidades de investimento global na região sem que os habitantes tivessem sido consultados. Desde 2018, a Assembleia de Compartes dos Baldios impede a Savannah Lithium Ltd de acessar os 2.000 hectares de terras comuns. Juntamente com os proprietários que resistiram às ofertas supervalorizadas feitas pela empresa britânica por suas terras, eles conseguiram impedir a prospecção de lítio em seu território entre 2018 e dezembro de 2024. 

O conflito sobre a mineração de lítio no Barroso atraiu ambientalistas, organizações de afirmação de gênero, ativistas anti-extrativistas e pesquisadores interessados em ciências naturais e sociais, biodiversidade, diversidade cultural, antropologia, geografia, arquitetura, justiça climática e justiça social. Vários grupos interdisciplinares apoiaram processos de consulta, amplificaram as vozes da comunidade local e organizaram eventos sociais e culturais que contribuíram para a afirmação e a autoconfiança da identidade coletiva local. 

Recentemente, o conflito ganhou destaque nacional depois que António Costa, primeiro-ministro de centro-esquerda desde 2015, foi forçado a renunciar em 2024 devido a investigações de corrupção na concessão de direitos de mineração de lítio na região do Barroso (Lamb 2024). No entanto, a eleição subsequente não abordou o debate público sobre a mineração de lítio, e o governo de centro-direita que assumiu continuou a abrir caminho para sua exploração. Em dezembro de 2024, o ministro da Energia emitiu uma servidão administrativa autorizando a Savannah Resources a acessar tanto baldios quanto terras privadas para a prospecção de lítio. A decisão permitiu a retomada das atividades após sete anos de paralisação causada pela resistência popular, e uma nova fase na luta contra a Savannah Resources teve início.

 

A população local reagiu, juntamente com vários grupos ativistas que se juntaram à sua luta. Brincando com o termo servidão, o movimento organizou uma campanha sob o título “os tempos de servidão acabaram”. A necessidade de se auto-organizar para vigiar as fronteiras territoriais e defender seus direitos tem sido uma constante nos últimos anos da luta contra a incansável e contínua campanha da Savannah para realizar perfurações de prospecção. Frequentemente, a população “patrulha” as fronteiras das terras que a empresa não adquiriu, e houve momentos em que tiveram que substituir os marcos de propriedade que a empresa vinha deslocando. 

A grande área da mina proposta – 590 hectares, compreendendo três minas a céu aberto, duas pilhas de rejeitos de mineração, uma planta de lavagem de minerais e uma lagoa ou barragem de evaporação, situada entre 500 e 1.000 m de cinco centros residenciais – ameaça o equilíbrio da paisagem e os meios de subsistência locais através do consumo de terras, poluição do ar e impactos nas águas superficiais e subterrâneas. O Estudo de Impacto Ambiental (EIA) da empresa afirma que a proporção de rejeitos para minério é de cinco para um, com pouco mais de 1% de teor de lítio no minério. A região é reconhecida por seus produtos característicos como mel, batatas, cordeiro, presunto e a carne bovina barrosã, bem como por suas paisagens, muito procuradas para o ecoturismo rural. O projeto de mineração ameaça perturbar a paisagem cultural local que foi construída ao longo de séculos, dando origem a estilos de vida distintos, produtos únicos e oportunidades econômicas específicas. A mineração, em escala muito menor, faz parte da vida desta região, mas a escala deste projeto de mineração de lítio tem o potencial de desestabilizar irreversivelmente a ecologia e a economia locais. 

De acordo com o EIA atualizado da Savannah, apresentado em 2023 como parte do pedido de expansão de sua licença, os 590 hectares da mina ocuparão “uma pequena porcentagem da área do Património Agrícola Mundial” (Savannah Resources plc 2023). Explicam também que apenas utilizarão águas superficiais e que os cursos de água desviados serão restaurados. No entanto, residentes e especialistas estão preocupados com a possibilidade de que as minas destruam os cursos de água subterrâneos que fluem para um complexo sistema fluvial. A área está localizada num sistema hídrico rico e sensível que alimenta muitos rios vitais, fluindo para o Tâmega e depois para o rio Douro. Além dos riscos de contaminação pelos resíduos e produtos químicos utilizados nas instalações de lavagem de minério, os sistemas aquáticos essenciais para a vida da população serão fisicamente destruídos. 

A água é uma parte crucial da paisagem ecossocial ancestral de Covas do Barroso. Um aspecto foi mostrado a um dos autores deste artigo em 2022: 

No centro da aldeia, junto ao forno comunitário, um agricultor arrasta uma pedra que cobre uma abertura para um canal subterrâneo. Agora, um vizinho está a utilizar a água. Uma folha e alguns galhos sinalizam isso. Quando a sombra na cruz da aldeia toca uma marca feita na pedra, é hora de abrir a torneira e irrigar os campos do outro lado da aldeia. A população local segue este processo há centenas de anos. (Notas de campo do autor, junho de 2022)  

Este é apenas um dos muitos exemplos de práticas ecossociais tradicionais que resistiram ao teste do tempo. A partilha da água é uma das principais razões para disputas legais e também violentas entre pequenos agricultores no norte de Portugal. O sistema de partilha de água de Barroso não evita todos os conflitos, mas certamente os domou sob um conjunto de procedimentos e rituais de cooperação e respeito pela natureza. O mesmo acontece com o sistema pastoril, a gestão de florestas comuns e outras práticas culturais sazonais associadas aos ciclos da terra.

O site da Savannah mostra que os danos à paisagem serão revertidos por meio de uma série de intervenções paisagísticas. As cavas serão preenchidas e vegetadas no final da vida útil da mina. No entanto, mesmo que todas essas promessas sejam cumpridas (e os compromissos pós-fechamento de mina são notoriamente difíceis de fazer cumprir), não há nenhuma referência a como a mineração romperá as relações seculares entre a população e o território, e muito menos a como essas relações poderiam ser restauradas após o fim da vida útil do projeto de mineração.

As vozes que emergem das lutas no Barroso e no Jequitinhonha são diferentes e falam de experiências muito diferentes. No entanto, ambas são cruciais para compreender o que está em risco no atual avanço da fronteira extrativista. 

4 Vozes das lutas 

No Vale do Jequitinhonha, uma crise ambiental tem sido vivida pelas comunidades e territórios desde as origens do empreendimento colonial moderno. A pilhagem dos bens comuns esteve implicada na destruição de modos de vida e práticas ancestrais e impôs a submissão a um modelo hegemônico de expropriação, colocado como inevitável. Essa característica da acumulação primitiva de capital, que forçou a separação entre o trabalho e as condições de reprodução da vida, também criou espaços de contradição. A dependência dos trabalhadores em relação às elites locais não impede a resistência e a sobrevivência de diversos modos de vida. Essa permanência foi alcançada por meio da produção de vida ancorada na sociobiodiversidade – ambientes onde a diversidade biológica é inseparável da presença das pessoas e onde os usos tradicionais e coletivamente gerenciados da terra refletem uma práxis ecológica. Essas comunidades geralmente mantêm relações campo-cidade, nas quais a circulação de produtos se baseia em redes de sociabilidade que envolvem ajuda mútua e a perspectiva do valor de uso, mesmo que isso seja mediado, em certas situações, pelo dinheiro.

Em audiências públicas e outras ocasiões em que as comunidades do Vale do Jequitinhonha se posicionaram contra a mineração de lítio, vozes das comunidades ecoaram frases como “O vale é do Jequitinhonha, não do lítio”; “Nem fome nem lítio, o Vale do Jequitinhonha é o Vale da Arte”; e “A mineração mata”. Em julho de 2024, durante uma audiência pública realizada na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), um líder quilombola da comunidade de Córrego Narciso enfatizou que as comunidades não são contra o desenvolvimento da região, mas exigem ser envolvidas nas decisões:

Exigimos uma transição energética que respeite as comunidades indígenas e tradicionais. Queremos uma transição energética que traga desenvolvimento, educação e empregos para o nosso povo. Não se trata apenas de levar carros elétricos para países ricos, não.

Dadas as inúmeras lutas contra os supostos ciclos de “salvação” da região, como o boom das pedras preciosas, as barragens e as monoculturas de eucalipto, que ameaçam os modos de vida locais, as comunidades afetadas delinearam suas próprias visões de desenvolvimento. Estas baseiam-se principalmente em técnicas de “convivência com a seca”, que foram iniciadas no início do milênio em muitas comunidades pela Articulação Semiárido Brasileiro (ASA Brasil), uma organização que reúne 3.000 grupos da sociedade civil (ASA s.d.). O objetivo é otimizar os sistemas existentes de uso da terra com métodos simples de gestão da água e agroecologia para melhorar os padrões de vida. 

 

No entanto, isso entra em conflito com a demanda por terras para uso industrial, que agora inclui a mineração de lítio. Portanto, não é surpreendente que em muitos lugares haja retomadas (recuperação de terras) ou ocupações de terras em antigos territórios comunitários. Um exemplo particularmente impressionante foi uma iniciativa do Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR) em Rio Pardo de Minas, município próximo ao Vale do Jequitinhonha, que clamava por uma “reconversão agroextrativista”, que chegou a gerar um debate sobre desenvolvimento rural sustentável na Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais em 2004 (Laschefski 2025). 

As técnicas mencionadas acima eram tão populares na área de operação da Sigma Lithium que alguns elementos, como as barraginhas (pequenas barragens para captar água da chuva), foram incorporados aos programas sociais da empresa. Esse tipo de iniciativa serve principalmente para atrair o apoio da população rural às atividades de mineração. À luz de tais “benefícios”, muitas vezes surgem conflitos dentro das comunidades, dividindo-as em grupos a favor e contra a mineração de lítio. Esse divisionismo é particularmente desafiador em famílias onde um ou mais membros trabalham para a empresa, mas a família como um todo sofre os efeitos negativos. Assim, o discurso abstrato de “sustentabilidade” da “transição energética” contrasta com as práticas concretas de sustentabilidade relacionadas ao uso da terra agrícola adaptado às condições naturais locais. Isso obscurece o conflito territorial fundamental entre atores econômicos poderosos e pequenos agricultores marginalizados que moldaram a região desde o início da colonização. 

No Barroso, podemos ver táticas muito semelhantes de divisão da comunidade. Como é comum no norte de Portugal, as propriedades são divididas entre muitos herdeiros, resultando em muitas divisas e diferentes usos dentro da comunidade. A primeira etapa da aquisição da mineração no Barroso foi induzir os proprietários a vender, colocando-os em uma posição antagônica em relação aos seus vizinhos, que muitas vezes são seus próprios irmãos. 

Além disso, sete anos de resistência ativa expuseram os residentes de uma região normalmente tranquila a um estresse contínuo. Essa atividade política teve um impacto negativo sobre aqueles que estão na linha de frente da luta. Como disse um agricultor local em uma reportagem da TV nacional: “Fomos forçados a nos tornar ativistas – não queríamos isso” (entrevista com agricultor local, Carneiro et al. 2025). Outra disse em uma entrevista em podcast: “Sentimo-nos cansados e sem muita esperança, mas vamos continuar a lutar, mesmo com prejuízo da nossa saúde” (Fumaça 2024). A única maneira de continuar lutando por todo esse tempo, sempre com a sensação de estar no lado mais fraco de um desequilíbrio de poder, é articulando um forte senso coletivo de justiça contra um inimigo comum. Como afirmou outra pessoa entrevistada para a reportagem da TV: “Isto agora para nós agora é como uma guerra. É exatamente a mesma coisa!” (entrevista com agricultor local, Carneiro et al. 2025. 

A confluência de vozes mobilizadas em torno da população do Barroso foi construída ao longo dos anos através da liderança local e das pontes criadas com movimentos de várias origens. Slogans como “Verde é o Barroso”, “Não à mina, sim à vida”, “Minas não” e “Água é vida” podem ser vistos no centro da vila de Covas do Barroso, em vários cartazes e pinturas. Os cartazes estão expostos na cerca do campo de futebol local e ao lado do forno comunitário (uma característica comum das vilas desta região). As imagens estão a poucos metros do escritório que a Savannah Resources montou para atender o público local uma vez por semana (agora fechado há vários anos, mas ainda com uma placa na porta).

 

O que os povos do Barroso e do Jequitinhonha estão passando não é apenas um sacrifício necessário na fronteira que alimenta a transição energética. Seus testemunhos e lutas mostram a extremidade de uma expansão do consumo de energia, materializada em consumo forçado de seus territórios de terra e trabalho. Nesse sentido, suas vozes são cruciais nos debates sobre descarbonização e mitigação das mudanças climáticas. 

5 Produção de periferias e expansão das fronteiras extrativistas 

De acordo com a tese convincente do historiador ambiental Jean-Baptiste Fressoz, a humanidade nunca fez a transição entre fontes de energia, mas sim as acumulou e redistribuiu na divisão global do trabalho (Fressoz 2024). Em vez de fazer a transição, as novas tecnologias energéticas criam as condições para a expansão das tecnologias antigas, aumentando a demanda por extração e produção insustentáveis. O autor usa a expressão “simbioses energéticas” para nomear esse entrelaçamento e reforço mútuo das tecnologias energéticas (Fressoz 2025). Esse processo está em ação na expansão do “extrativismo verde”, impulsionado pelo atual processo de eletrificação dos sistemas energéticos e expansão de novas tecnologias solares e eólicas. Isso pode ser visto na substituição de veículos com motor de combustão interna por veículos elétricos, que é a principal condição para a viabilidade econômica dos projetos de mineração discutidos aqui. Além do alto consumo de terra exigido pela produção de baterias, os novos carros elétricos demandam ferro, alumínio e plásticos, uma demanda que expande as operações de mineração como um todo, as indústrias petroquímicas, a fundição movida a carvão e a “eucaliptização” da paisagem para a produção de carvão vegetal. 

De fato, como argumenta Artiga-Purcell em Relational Resources (2024), vemos um emaranhado de vários extrativismos, que se alimentam mutuamente. Eles usam justificativas baseadas na descarbonização, assim como sociais e econômicas, para reduzir o valor relativo dos territórios de vida e trabalho que destroem. Nesse sentido, esses processos de mineração produzem vários níveis de danos que se estendem por cadeias de abastecimento e alimentam visões distorcidas de transições verdes em outros lugares por meio de seus processos de destruição e acumulação de valor (Arboleda 2020). Cada mina de lítio que consegue entrar em produção não está apenas destruindo os territórios onde está localizada; possibilita a intensificação de todos os outros processos destrutivos que alimentam as novas tecnologias de produção, armazenamento e mobilidade de energia, intensivas em consumo de materiais e terras. Cada mina está envolvida em processos planetários de mudança que estão intensificando as múltiplas crises atuais, destruindo alternativas ao modelo único do complexo monocultura-mineração-consumo em massa. 

Por mais que as teorias críticas do extrativismo tenham fornecido elementos teóricos cruciais sobre os quais nos baseamos neste  texto, não podemos compreender os processos em jogo na atual fronteira extrativa se não enxergarmos além do nacionalismo metodológico que marca essas teorias. Embora Portugal tenha colonizado o Brasil e explorado seus recursos minerais desde o século XVI, é um país europeu relativamente pobre. De acordo com a teoria clássica dos sistemas mundiais (Wallerstein 1976), Portugal seria um Estado semiperiférico – ocupa uma posição periférica em relação aos países centrais e uma posição central em relação aos países periféricos (Santos 1985).

No entanto, essa definição de periferia em um sistema mundial de Estados-nação, que em muitos casos também considera o Brasil uma semiperiferia, não é a que trabalhamos neste artigo. Nossa noção de periferia rejeita o nacionalismo metodológico (Wimmer e Schiller 2003) que considera a nação como unidade de análise para propor que os territórios se constituem como periferias em dinâmicas relacionais impostas pelas cadeias globais de abastecimento que operam em diferentes escalas. Canclini (2014) apontou que a globalização depende da expansão global e da naturalização do Estado-nação como uma unidade percebida de identidade comum e interesse político. No entanto, em processos extrativistas, os territórios são vitimados por meio de sua submissão a circuitos transnacionais de abastecimento e exploração de materiais (Murrey e Mollett 2023; Arboleda 2020). 

Para que a violência sobre os territórios seja justificada, eles primeiro precisam ser esvaziados, em processos físicos e simbólicos violentos que assumem diferentes formas em diferentes partes do planeta. Na América Latina, a corrida por minerais críticos representa uma nova fase de uma longa história de colonização. A visão hegemônica da riqueza natural da região como exuberante e inesgotável justificou a pilhagem, a violência e a expropriação dos corpos e territórios americanos nos quais se baseava a economia colonial (Machado Aráoz 2023). Alguns séculos após o início da colonização europeia violenta, o boom das commodities no início dos anos 2000 representou uma expansão das fronteiras extrativistas, da qual os governos latino-americanos de todas as orientações políticas se aproveitaram. Svampa (2019: 65) chamou o processo de alinhamento global em torno de uma visão produtivista do desenvolvimento baseada na exportação em grande escala de matérias-primas de “consenso das commodities”. Bringel e Svampa (2023: 28) apontam que isso foi seguido pelo “consenso da descarbonização”, justificando uma suposta necessidade de aprofundar a exploração dos territórios já vitimados para mitigar as mudanças climáticas. 

A rápida industrialização da China impulsionou o boom das commodities entre 2000 e 2014 e suscitou preocupações entre os governos europeus e o governo dos EUA quanto aos preços e ao acesso a esses produtos primários. Entre 2000 e 2021, o governo chinês investiu US$57 bilhões em projetos de exploração de minerais essenciais para a transição energética em todo o mundo (Walsh et al. 2025). Motivados pela competição com a China pelo domínio das cadeias de abastecimento de “tecnologia verde”, a partir de 2018, os governos da UE e dos EUA começaram a revisitar os conceitos de minerais críticos ou estratégicos que remontam à Segunda Guerra Mundial (Riofrancos 2023).

Alianças entre governos e empresas de mineração na UE e nos EUA começaram a ser formadas em torno de políticas e práticas de internalização das operações de extração e processamento de minerais críticos, apesar das conhecidas ligações entre mineração, violações dos direitos humanos, conflitos sociais e degradação ambiental (Global Witness 2024) que, no passado, influenciaram as práticas de externalização dessas empresas do Norte global para o Sul global (Riofrancos 2023). Nesse contexto, a internalização da atual expansão da fronteira energética está associada ao reforço da segurança do Estado e à transição para uma economia verde — o que Riofrancos chama de nexo segurança-sustentabilidade (ibid.). 

Seja no Norte global ou no Sul global, os territórios são vitimados por processos violentos de esvaziamento e extração, com base na justificativa de que contêm recursos críticos para a segurança e a sustentabilidade do bem-estar social nacional. No entanto, a geologia nem sempre é destino (Riofrancos 2023); é mais a relativa privação de poder dos territórios do que o cálculo de seus recursos que abre caminho para a vitimização extrativista. Assim como nos crimes contra pessoas, os crimes contra territórios de vida e trabalho são facilitados pela vulnerabilidade mais do que por outros fatores. Desse modo, os pedidos de extração de minerais críticos coincidem, em vários casos, com delimitações de territórios historicamente ocupados e utilizados por comunidades indígenas, tradicionais ou rurais e unidades de conservação ambiental nas chamadas áreas periféricas globais. 

Estratégias discursivas que desvalorizam a riqueza da sociobiodiversidade dessas regiões são comumente utilizadas ou reforçadas por atores que defendem o avanço de projetos de desenvolvimento extrativista. É o caso da rotulação da região do Jequitinhonha como Vale da Miséria, que precisaria ser redimida por meio de projetos de desenvolvimento para estimular a industrialização e a urbanização. Esse rótulo tem origem em dados econômicos que caracterizam o declínio após os vários ciclos econômicos mencionados anteriormente, medidos em taxas de crescimento econômico negativas, aumento do desemprego formal e, finalmente, empobrecimento das elites locais. Grande parte da população rural nunca foi integrada a esse sistema industrial-capitalista; portanto, ela é invisível nas estatísticas sobre a economia da região. 

No entanto, a qualidade de vida desses residentes muitas vezes excede a dos trabalhadores assalariados nas indústrias, fazendas comerciais e plantações de eucalipto ou mesmo nas empresas de mineração de lítio. Dado o curto período de impulso econômico até que os depósitos de lítio se esgotem em cerca de 15 anos, existe o risco de que Araçuaí, Itinga, Coronel Murta, Salinas e outras cidades da região sejam novamente tomadas pelo declínio, à medida que as paisagens devastadas se tornam inadequadas para os usos anteriores da terra. Para as pessoas deslocadas de suas terras por essas atividades, o destino mais provável é a precariedade urbana nas “periferias” produzidas pelas cidades em expansão e declínio no Vale do Jequitinhonha.

No Barroso, a extração ainda não começou, mas há o exemplo de Borralha, não muito longe de Covas do Barroso, onde as consequências dos ciclos de expansão e recessão que caracterizam as economias extrativas são visíveis para todos. As minas de Borralha produziram tungstênio em vários períodos entre 1903 e 1987, trazendo prosperidade e emprego intermitentes para uma população empobrecida. Durante a Segunda Guerra Mundial e, depois, durante as guerras da Coreia, Borralha prosperou, pois o tungstênio era muito procurado pelas indústrias militares. Como destaca o museu da vila, Borralha foi uma das primeiras cidades do país fora dos centros urbanos a ter luz elétrica e viveu décadas de prosperidade econômica, apesar da alta taxa de mortalidade no trabalho mineiro. Hoje, é um local abandonado, onde se destacam as ruínas, o museu da mineração e o centro de visitantes. Como explicou um casal da vizinha Covas do Barroso em entrevista a um dos autores 

Antes da chegada da mineração a Borralha, as pessoas eram pobres, mas quem lá estava conseguia ganhar a vida com a agricultura. Quando os campos foram abandonados para que as pessoas trabalhassem nas minas, não havia nada para fazer quando as minas fecharam.13 

Ecoando Frank (1966), esse tipo de política de desenvolvimento, especialmente no contexto da mineração, leva principalmente à reprodução da condição de periferia por meio de um crescimento precário, intermitente e dependente. Essas histórias de promessas extrativistas de prosperidade oferecem às comunidades afetadas pela chegada das operações de mineração um vislumbre de futuros que não são calculados nas projeções das empresas de mineração e das autoridades estatais de licenciamento.

O EIA que as empresas de mineração são obrigadas a apresentar para concluir o processo de licenciamento ambiental, tanto no Brasil quanto em Portugal, é um instrumento usado para desqualificar as comunidades e regiões afetadas, apresentando-as como “pobres” ou “carentes”, desprovidas de viabilidade econômica relevante. Consequentemente, a empresa extrativista afirma oferecer redenção econômica, uma oportunidade indispensável cuja urgência e inevitabilidade são evidentes (Barbosa 2024). A história e o patrimônio cultural das comunidades, municípios e regiões são, por vezes, descritos nessas avaliações, bem como algumas de suas dinâmicas sociais e econômicas que serão afetadas pelos projetos, principalmente para mostrar como elas se beneficiarão com a chegada da suposta prosperidade extrativa. O que nunca é mencionado é o efeito da transformação dos territórios pela mineração nas relações entre a população local e os ecossistemas em que estão inseridos. As práticas sociais e econômicas das pessoas nesses territórios são conceituadas como separadas do meio ambiente; os sistemas hídricos e a fauna são tratados como desprovidos de implicações para a vida humana; portanto, a possibilidade de a mineração intensiva causar danos culturais e socioeconômicos irreversíveis nem sequer é considerada.

Os dois contextos que apresentamos mostram que as dinâmicas em torno do avanço da fronteira do extrativismo “verde” tendem a reproduzir mecanismos semelhantes aos da ocupação colonial, no sentido de que desqualificam as populações e os conhecimentos locais, criando uma espécie de terra nullius, onde a destruição é mais facilmente justificada e aceita. Isso ocorre por meio de uma série de processos de silenciamento das vozes locais, desvalorização da riqueza do território e invisibilização da relação entre cultura e paisagem. As formas como isso ocorre, como a supervalorização da prosperidade trazida pelo projeto, já foram descritas na literatura como uma forma de “guerra social” (Dunlap e Riquito 2023) que cria divisões entre a população. No caso da atual onda de extrativismo verde, isso ocorre por meio da articulação de um imaginário sociotécnico de neutralidade de carbono (Canelas e Carvalho 2023; Carvalho, Riquito e Ferreira 2022). 

6 Reflexões finais 

A externalização dos custos socioecológicos leva a reivindicações territoriais que dão origem a inúmeros conflitos com a população local, especialmente com os povos indígenas e as comunidades tradicionais. Nesse sentido, a lógica por trás desse modelo de desenvolvimento “descarbonizado” não é diferente daquela das estratégias de urbanização e industrialização que foram consideradas globalmente insustentáveis nos dois primeiros terços do século XX e levaram ao surgimento das cadeias de abastecimento de aço-energia-mineração atuais, incluindo os centros urbanizados associados. Um sinal de que não apenas as paisagens, mas também as mentes estão sendo monoculturalizadas é o fato de que a sociobiodiversidade de regiões inteiras está sendo reduzida aos bens ou commodities produzidos nelas, como mostra, por exemplo, a rotulação do Vale do Jequitinhonha como “Vale do Lítio”. Isso corrobora as ideias de Vandana Shiva (1993) e as ideias do filósofo quilombola “Nego Bispo” (Bispo dos Santos 2015). 

As discussões sobre mudanças climáticas, descarbonização e transição energética reduziram o debate ambiental à fórmula química CO2. Essa abstração conseguiu desviar o foco da transformação socioecológica das sociedades urbanas, industriais e capitalistas, que dominava as discussões antes da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro em 1992. Dessa forma, as empresas de lítio e os setores metalúrgico, energético e minerador conseguiram superar sua imagem de vilões e se posicionar como protagonistas na luta contra as mudanças climáticas. No entanto, esse complexo industrial “verde” neutro em CO2 em regiões como o Vale do Jequitinhonha e o Barroso está causando perturbações locais em suas ecologias, particularmente em seus ciclos hídricos. Essas consequências são sentidas nesses territórios como forças geológicas semelhantes às mudanças climáticas. 

Sob a égide da “compensação e mitigação de impactos”, tudo o que é destruído é considerado reparável ou compensável. Os impactos ambientais são avaliados e medidas de mitigação são propostas, mas o meio ambiente é invariavelmente apresentado como separado das dimensões social, cultural e econômica. Há uma forte razão para essa separação. A reintegração das pilhas de rejeitos de mineração na paisagem e o restabelecimento da vegetação, da fauna e dos sistemas hídricos podem ser prometidos, orçados e projetados, mas as relações ancestrais e tradicionais com a terra são mais difíceis de restabelecer. Como observou Porto-Gonçalves (1998), separar os seres humanos do que a ciência moderna convencionalmente chamou de “natureza” é uma forma eficaz de subordinar ambos ao capital. 

Assim, a chamada “transição energética” acabou se revelando um processo no qual grandes empresas de mineração, em nome da descarbonização por meio da eletrificação, intensificam a extração de minerais críticos e expandem as fronteiras da destruição ambiental por meio da violência física e simbólica. Nesse contexto, as duas regiões discutidas neste artigo são configuradas como “periferias silenciadas” a serem “desenvolvidas”. A partir dessa perspectiva, os meios de subsistência adaptados às condições ambientais locais são percebidos como obstáculos à “transição energética”. Como vimos nos dois estudos de caso, quando essa mentalidade é transferida para a prática espacial, essas áreas acabam se tornando “territórios vítimas” das políticas de mudança climática.

O caráter neocolonial do antigo modelo de desenvolvimento urbano-industrial-capitalista é agora rebatizado como “climaticamente neutro”. Cinquenta anos atrás, o discurso era muito diferente: naquela época, ainda se dizia que a soma dos problemas ambientais causados pela industrialização e monocultura de paisagens inteiras levaria à perda de biodiversidade, erosão do solo, poluição do ar e da água, esgotamento de recursos e, em última instância, ao colapso climático. Hoje, porém, a ruptura metabólica socioecológica se manifesta não apenas na alienação territorial da sociedade urbana, mas também no caráter tecnocrático do debate sobre as mudanças climáticas. Nesse contexto, a sustentabilidade se refere apenas à manutenção dos mercados por meio da invenção de bens “limpos” para a minoria global de consumidores abastados. 

A perda das relações ancestrais com a terra, dos laços de solidariedade comunitária e das cosmovisões que consideram pessoas, animais e rios como parte de um sistema intrincado e inseparável não será compensada por planos para compensar o impacto ambiental. Essas relações ecossociais são exatamente o que é necessário para construir um mundo resiliente ao colapso climático. Têm sido elementos centrais da história de vida das comunidades tanto no nordeste de Minas Gerais, Brasil, quanto no Barroso, norte de Portugal, antes mesmo de se tornarem palavras da moda nos discursos políticos e corporativos dominantes. Ao longo dos séculos, povos indígenas, quilombolas, camponeses e outras comunidades tradicionais sobreviveram a muitas tentativas de extermínio e construíram estratégias sociais e econômicas que se adaptam às condições locais; estratégias que lhes permitiram conciliar vida, trabalho e proteção da biodiversidade, “subordinando os objetivos econômicos aos critérios de dignidade humana, justiça social e ecologia” (Escobar 2018: 148). A sociabilidade comunitária, as redes de solidariedade entre famílias e comunidades, o reconhecimento e a proteção da diversidade da vida animal e vegetal, das águas, dos campos e das montanhas, bem como a incorporação de valores imateriais como expressões de bem-estar são os fundamentos das relações sustentáveis entre a sociedade e a natureza. 

Notes 

1 Este artigo baseia-se em pesquisas realizadas com o apoio do Programa ODA Challenge-Oriented Research Grants 2024 da British Academy, apoiado pelo Fundo de Parcerias Científicas Internacionais do Governo do Reino Unido, concessão IOCRG\100442; da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG - Processo APQ-05068‑24); e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq no 09/2023 - Bolsas de Produtividade em Pesquisa - PQ, Processo 16503/2023-1). 

2 Francisco Calafate-Faria, Professor, London South Bank University, Reino Unido. 

3 Klemens Laschefski, Professor Titular, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Brasil. 

4 Bruna Viana de Freitas, Co-coordenadora, Rede de Defensores de Ecossistemas Críticos e Modos de Vida, Brasil. 

5 Fabiana Soares Leme, Co-coordenadora, Rede de Defensores de Ecossistemas Críticos e Modos de Vida, Brasil. 

6 Rômulo Barbosa, Professor, Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), Brasil. 

7 Aline Weber Sulzbacher, Professora, Universidade Federal do Vale do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), Brasil. 

8 A mineração dos materiais necessários para construir um veículo elétrico pode exigir mais de quatro vezes mais terra do que os materiais necessários para um motor de combustão interna equivalente. Isso se deve principalmente à necessidade de cobalto, níquel, lítio e outros materiais nas baterias dos veículos elétricos, que estão sendo extraídos com tecnologias que produzem proporções muito baixas de minério por solo, gerando grandes quantidades de solo com valor econômico nulo ou negativo (IEA 2021). 

9 No Brasil, os povos e comunidades tradicionais são “grupos culturalmente distintos que se reconhecem como tais. Possuem formas próprias de organização social, ocupam e usam territórios e recursos naturais como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica. Empregam conhecimentos, inovações e práticas geradas e transmitidas de geração em geração. [...] Povos e comunidades tradicionais conservam a biodiversidade graças à sua relação com a natureza. Protagonizam, cada vez mais, práticas econômicas racionais, por meio de sistemas produtivos baseados na sociobioeconomia” (Ministério do Meio Ambiente e da Mudança do Clima s.d.). Atualmente, existem 28 grupos que se enquadram nessa categoria, presentes em todos os seis biomas que compõem o Brasil, incluindo povos indígenas e comunidades quilombolas – estas últimas formadas por descendentes de pessoas de ascendência africana que foram escravizadas (ibid.). As comunidades tradicionais brasileiras se enquadram no que a Convenção sobre Povos Indígenas e Tribais da Organização Internacional do Trabalho (OIT-169) classifica como Povos Tribais (OIT 1989). 

10 Estas são as auto identificações de três dos 28 “Povos Tradicionais” reconhecidos pelo governo brasileiro. Os Geraizeiros criam gado em terras de savana sem cercas nas chapadas, enquanto praticam agricultura de pequena escala nos vales. Caatingueiros pastoreiam gado e cabras e plantam mandioca e outras culturas de subsistência na floresta seca conhecida como Caatinga. Os vazanteiros migram sazonalmente para as margens do rio São Francisco para plantar culturas no rico solo aluvial exposto pela vazante dos níveis de água na estação seca (Shankland et al. 2016). 

11 A cerimônia de toque do sino é um evento publicitário oferecido às empresas listadas na Nasdaq, com transmissão ao vivo pela televisão. 

12 Um pedido de direito de mineração indica a intenção do requerente de pesquisar e comercializar substâncias metálicas em uma determinada região no futuro. 

13 Entrevista com cidadãos de Covas do Barroso, 2022. 

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© 2025 Os Autores. IDS Bulletin © Institute of Development Studies | DOI: 10.19088/1968-2025.137 Este é um artigo de acesso livre distribuído nos termos da Licença Pública Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY), que permite o uso, distribuição e reprodução irrestritos em qualquer meio, desde que os autores originais e a fonte sejam creditados e que sejam indicadas quaisquer modificações ou adaptações. 

IDS Bulletin é publicado por Institute of Development Studies, Library Road, Brighton BN1 9RE, UK. Este artigo é parte do IDS Bulletin Vol. 56 No. 2 Novembro, 2025, ‘Lutas pela Justiça na Transição Energética: Vozes da Linha da Frente’, ‘Engajamento Cívico e Transição Energética Justa em Moçambique: Perspectivas das comunidades locais’.